23 Dezembro, 2009

Saudade


“De longe te hei de amar da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância.

(Ceclia Meireles)

Foi um dos melhores filmes que já haviam assistido e já haviam assistido vários, desde os mais nobres russos, que, mesmo russos, são nobres, até os subcutâneos espanhóis que os faziam doer as entranhas. O que lembram é que o filme nasce em uma bebedeira, aliás, antes da bebedeira um casal. Um casal com tempo, forma e sem espaço. Como os grandes amores, acreditavam revolucionariamente que aquele aperto, aquela célula (e o arrepio) seriam o combustível alternativo de todas as energias que os faziam estarem juntos e tocarem-se. Sexo. E ele lembrava. Enquanto acontecia esse (um dos melhores filmes) ele lembrava, como se pudesse prever o futuro, lembrava da cama, da boca, pequena e vermelha, morango. Ele ainda mantinha na lembrança o que aconteceria, os seios brancos, medianos, prontos no ponto. As pernas fortes, suor.

Ambos suavam muito, o ar condicionado do cinema não estava muito bom e Fortaleza tem sofrido de um aquecimento descomunal, no geral, todos suavam. O filme era chileno, falava algo sobre um garoto, uma amizade entre garotos de classes sociais diferentes, era um filme a cara dos dois, amigos ou amantes, ou algo que funde e confunde essas duas palavras. Não lembravam direito o nome do filme, embora tenha sido um dos melhores filmes que já viram. Ela perguntava algo sobre orixás e mantinha os olhos vidrados nele, ele falava, talvez mal mensurasse o que de fato falava, dizia coisas sobre narrativas de um povo africano e, de lá, como se pudesse consertar o tempo, ele contava a história das coisas, ela olhava, ria e aprendia o que já havia aprendido.

No suspiro dele, ela prendia o fôlego. Ele tinha uma boca pequena, os olhos curtos, sorriso fácil. Era bonito, ou pelo menos falando com a propriedade com que falava sobre orixás, ele devia ser bonito. Usava jeans o tempo todo, mantinha os cabelos sempre despenteados e usava uma blusa de botão por cima de uma camisa, enfim, imagem corriqueira, contemporâneo demais, mesmo naquele calor. Ela era fresca, parecia estar sempre limpa, seca, suave. Tirava a franja dos olhos, embora os cabelos fossem curtos, a franja incomodava os olhos (antes apenas olhos) e o sorriso, um aparelho, metal sem risco, ele sentia, enquanto tinha, que aquilo lhe faria falta, assim como o vermelho do cabelo e a vontade de tomar café.

O menino andava por Santiago, via os protestos, um monte de gente nas ruas, contra o regime opressor de Pinochet e ele, o menino do filme, estava de olho em uma menina. No final eles sempre estão de olho em uma menina. Ele estava de olho na menina, e a menina não estava de olho nele, a menina, garota ruiva, que ainda tem uma célula, ela sabe que tem certas coisas que nunca mudam. Ele mudou. Ela mudou. Mas ele ainda pensa nela, olhando ele no filme, pedindo silêncio, os orixás calados, o cabelo ruivo e a franja, ambos, quietos. Esperam o final do filme, o momento tenso, mas eles sabem que é um dos melhores filmes que assistiram juntos, inclusive, o primeiro filme que assistiram juntos (ultimo?) machuca!

Alexandre Greco

11 Dezembro, 2009

Resposta a Psicóloga

CAROS COLEGAS, ALUNOS, PESQUISADORES, CIDADÃOS... E PSICÓLOGOS!!! Eu não concordo com a psicóloga, por isso estou fazendo a minha parte - DIVULGANDO!

A maioria de vcs sabe o qto defendo o meio virtual e o qto acredito que este espaço seja um dos mais apropriados nesta "modernidade tardia" (BECK, GIDDENS, LASH , 1997) para a difusão de informação e construção do saber.

Ao mesmo tempo, percebemos a fragilidade desse meio, se pensamos sob uma ótica tradicional e inflexível do não-dinamismo acadêmico. E espero que este e-mail seja UM DESSES EQUÍVOCOS.

Custei um pouco para retorná-lo aos que receberam, mas ao fazer, acrescentei nomes da minha caixa de correio institucional, ainda mais pela nossa Instituição ter o curso de psicologia, e estarmos ATENTOS ao profissional que encaminhamos ao mercado!

Primeiro, analisar atos e discursos não é algo fácil, e, a depender do viés tomado, ou seja, do método adotado, as contestações podem ser inúmeras. Agora, se essa análise se mostra inconsistente, frágil ou, na pior das hipóteses, completamente EMPÍRICA, como é o caso do conteúdo deste e-mail, devemos atentar para a não difusão de informações carregadas de PRÉ-CONCEITO. Como já dizia Norberto Bobbio (2002) a respeito da discriminação - que é algo a mais que a diferença e sempre desrespeitosa e hegemônica, e geralmente, de origem maniqueísta - esta, "nasce na cabeça dos homens" e tem que ser extirpada ali mesmo, através da educação. É para este papel, como educadores, que prestamo-nos: questionar, sistematizar, averiguar, comparar e considerar devem ser as palavras de ordem. Assim, não entrarei, aqui na Teoria dos Atos de Fala (AUSTIN, 1962), pois já tomaria uma outra direção e nos conduziria ao tal empoderamento institucional, ou seja, o fato de ser diplomado em uma determinada área do conhecimento me dá o direito de ser creditado nas minhas palavras, e mais, o que estaria por trás destas palavras ideologicamente?

Ao contrário, tentarei pontuar algumas reflexões que objetivam desconstruir - a partir da proposta defendida por Derrida - (BLUMENBERG, 1982; DUQUE-ESTRADA, 2004: 33-64) conceitos implícitos neste e-mail e que, provavelmente devem estar sendo difundidos sem a justa análise - arma, notoriamente, utilizada a serviço de uma elite dominante (THOMPSON, 1995).

Ponto 1- o ato de repúdio do cantor, ao pisar na BANDEIRA NACIONAL, foi sim, um desrespeito a um símbolo nacional - mas não caracteriza MARGINALIDADE ou ATITUDE APÁTRIDA. Sugiro à autora do texto, aprofundar-se nas questões que envolvem o binômio MARGEM/CENTRO, para melhor (ou realmente) entender o conceito de marginal(idade). Este comportamento desempenhado por Cazuza está relacionado à morte AINDA INEXPLICÁVEL de Tancredo Neves - isso ninguém fala! Por que? E mais, quantos vezes, somos nós, enquanto IDENTIDADE CULTURAL, pisoteados e envergonhados por representantes eleitos por nós mesmos? Por que culpar UM pelo erro contínuo e desenfreado de todos, sim... De todos, sem exageros, afinal, todos temos aquilo de que nos enverganhamos por ter feito um dia! A propósito... tenho o vídeo deste ato... e geralmente uso em minhas aulas, quando falo do momento pós-ditadura militar. Não defendo nem exalto - apenas comento, percebo, aprendo e reconstruo coletivamente.

Ponto 2- sim. foi corajosa ao escrever... e completamente emotiva... linguagem emotiva, pelo que me consta não é característica de textos de cunho científico...

Ponto 3- excelente reflexão entre parênteses da autora "(pelo menos eu)", em definir-se maniqueísta: "certo ou errado"... Sem comentários, pois não vou discutir o ponto de vista pessoa da autora do texto!

Ponto 4- sobre os exemplos de pais também evito discutir aqui, pois sairíamos do tema proposto. o mercado está cheio de manuais de paternidade e maternidade (grande parte deles construídos por psicólogos). E lembro que a maternidade é algo natural - nós, com a "necessidade" de reificar (THOMPSON, 1995) tudo é que construimos "modelos" de maternidade e paternidade. E aí, entraria uma outra discussão, para outro momento que é a questão de gênero (BUTLER, 2001; 1994), discutida no grupo de pesquisa que oriento, nesta IES. Cara colega acadêmica, os exemplos de paternidade e maternidade aqui usados pela senhora, não são aptos a um comentário generalizante. Não houve pesquisa, um casal não é sequer modelo para uma pesquisa quantitativa, quanto mais um corpusválido para tabulação. O que invalida suas considerações finais neste quesito. Outra vez, vemos a voz de uma mãe emocionada, clamando pela "segurança" (FOUCAULT, 1984) de seus filhos.

Ponto 5- Traficante x Usuário - a lei diferencia (ainda que não claramente - mas podemos, também, nos perguntar por que não é interessante para uma sociedade como a nossa essa distinção) estas duas atividades sociais - e pelo que nos consta, Cazuza era usuário apenas. Em rápida pesquisa na internet não achei nada que nos levasse a uma prisão do cantor por tráfico de drogas. Ao contrário, ao longo de 5 páginas de pesquisa (não me forcei a ir além), a única referência a Cazuza ser traficante é este texto que encaminho aos senhores e senhoras. E quem mais se enquadra na lista iniciada pela psicóloga? Elis Regina, estaria? Acho que não... ela falava com marcianos sobre os problemas aqui da terra!

Ponto 6- Surpreendi-me com a afirmação do juiz Siro Darlan. Parece-me que o referido advogado desconhece (como a maioria de nós) a Lei 11.343/2006... Parabéns!!! E passou no exame da Ordem... será que com 10? DEZordem!!!

Ponto 7- Fiquei horrorizado em saber que uma pessoa, ao assitir um filme, pense que aquilo é o certo a ser feito. Entao vamos conversar com nossos filhos sobre os filmes que falam sobre traição, enriquecimento (lícito ou não), etc. Uma família (hetero, homo, "pãe", etc) bem estruturada dispensa tais conversas. Fiquei mais horrorizado em perceber que este e-mail que este e-mail quer PARECER SER A COISA CERTA! Isso me preocupou deveras, a ponto de eu criar essa intervenção!

Ponto 8- "Juventude transviada"... Há quanto tempo não ouço esse termo... hahaha... Não consegui conter o riso... Lembrei-me da jovem guarda... cabelos longos, canções e protestos... mas conformidades com a ditadura militar... e por outro lado, os transviados do tropicalismo... certamente, na visão desta profissional, traficantes, marginais e delinquentes, tb... mas responsáveis por um dos maiores movimentos artísticos do nosso país - e digo isso com o orgulho da minha baianidade!

Ponto 9- Realmente, Karla, precisamos rever nossos (PRÉ-)conceitos... os conceitos, na verdade, precisam ser é fundamentados em princípios éticos laicos - já que contra toda a fundamentação ética, criaram a necessidade de uma locução adjetiva para este termo. QUE ABSURDO, filosoficamente falando!

Ponto 10- NÃO. Advérbio de negação. Palavra de ordem numa sociedade dita civilizada... Para Jung, um dos elementos da individuação. Para Freud, o princípio da dor (poderia dizer isso? Não sou psicólogo. Deles, conheço apenas o que se refere a linguagem, por isso mesmo, mais especializado em Lacan e Jung). Creio que com esta fala, a autora mostra toda sua linha de raciocínio... E aqui, começaria outra discussão (não contei quantas já se iniciaram, duas? três?)

ponto 11- (e último, para afastar-me da exatidão dos 10 mandamentos). A autora fala em educação. Ela tem noção do que afirma neste momento? Em caso afirmativo, a conclusão é inteiramente contrária aos argumentos expostos - o que invalida a própria discurssividade, demonstrando outros valores, mais importantes que denegrir a imagem de um dos brasileiros mais dignos de VIDA neste país. Em caso negativo, voltamos a uma concepção behaviorista de educação, e pior, pautada por instituíções político-religiosas... Putz! Isso me lembra o documento assinado pelo nosso presidente (do PT???) no Vaticano, garantindo o ensino religioso CRISTÃO-CATÓLICO (esse termo sustenta o princípio de universalidade contido? DUVIDO!) no nosso ensino público!

Caros, desculpem-me pelo email longo... MAS NECESSÁRIO! Não quero enaltecer ou execrar pessoas ou atitudes aqui, antes, meu intuito é refletir sobre o que lemos, o que nos faz interpretar o que lemos e como agimos frente ao que lemos. Já dizia Austin (1962) que "dizer é fazer".

Obrigado,
José Lins Jr.

* Ah! Ousei-me alterar o assunto do e-mail (MAIÚSCULAS NOSSAS), utilizando-me da mesma intenção do autor deste título ao se referir ao grande Cazuza - que sem ser psicólogo, e usando drogas e levando uma vida "transviada" (palavras da autora), fez muito mais sociologia que acadêmicos de renome nacional e internacional - como também o fizeram Caetano, Gil, Ednardo, Vinícius, Baden, e tantos outros.

(Pra quem quer ler o texto da psicóloga Karla Christine, siga link)


Referências:

AUSTIN, J. L. How to do things with words. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1962.

BECK, Ulrich, GIDDENS, Anthony e LASH, Scott. Modernidade reflexiva: trabalho e estética na ordem social moderna. São Paulo: Unesp, 1997.

BLUMENBERG, Hans. On deconstruction: theory and criticism after structuralism. London: Routledge, 1982.

BOBBIO, N. Elogio da serenidade e outros escritos morais. São Paulo: UNESP, 2002.

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do sexo. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001. p. 151-172.

______. Gender as performance: an interview with Judith Butler. Radical Philosophy, 67, Summer 1994. Disponível em:http://www.theory.org.uk/but-int1.htm. Acesso em: 11 dez. 2009 às 07:43h.

DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar. Alteridade, violência e justiça: trilhas da desconstrução. In: ______. (Org.). Desconstrução e ética:ecos de Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio/Edições Loyola, 2004. p. 33-64.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.

THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.


04 Dezembro, 2009

O Orfeu das pranchetas



Por FABRÍCIO CARPINEJAR

O Campeonato Brasileiro de 2009 escreve o derradeiro capítulo do livro "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mário Filho, clássico de 1947 do irmão de Nelson Rodrigues.

O palco do épico curiosamente será o Maracanã neste domingo , no duelo entre Flamengo e Grêmio.

No Maracanã, justo no estádio batizado de Mário Filho, o nome do escritor. Uma coincidência emocionante.

O protagonista é o mineiro Jorge Luís Andrade da Silva, o Andrade, ex-jogador do Mengo da geração vitoriosa dos anos 80, que formou uma das armações mais compactas e habilidosas do Brasil, ao lado de Zico e Adílio.

Andrade poderá ser o primeiro técnico negro campeão brasileiro.

Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio.

Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o exército foi mais justo antes.

Não há negros no comando dos nossos principais times.

Existem preparadores físicos, assistentes, dirigentes.

Mas nunca existiu um negro mandando numa grande esquadra, organizando taticamente o elenco, dando a palavra final sobre a escalação.

É como se ele pudesse chefiar com a bola nos pés, não fora do campo. Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas.

Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando a função autoral e a inteligência operística.

Mesmo depois de Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia, Didi, Garrincha e Pelé, o negro era um tabu como treinador dos maiores clubes.

E pensar que a mudança demorou a acontecer nas planilhas. Dentro de campo, estava resolvida na década de 50.

Segundo Mário Filho, o futebol passou por três grandes fases: 1900/1910 (elitização), 1910/1930 (exclusão de negros; Vasco é o primeiro time a adotá-los e lutar contra a discriminação) e 1930-1950 (ascensão social dos negros e liberdade racial).

Está caindo o último bastião do racismo no país. Acabaram as restrições.

Andrade é o Orfeu das pranchetas.

Realizou uma revolução no vestiário, uma revolução de abrigo, só comparável à grandeza heroica de um Pelé fardado.

Desde 2004, espera sua chance de efetivação no Flamengo.

Já salvou o time da degola como interino, já foi suplente diante das demissões de Celso Roth, Joel Santana e Ricardo Gomes.

Durante cinco anos, engoliu sapos, recompôs diplomaticamente suas frustrações e expectativas, aceitou passivamente os interesses das bolsas de valores.

O folclore conta que Cuca o colocava para completar a barreira nos treinos, durante a cobrança de faltas.

Andrade é o principal personagem.

Não será Petkovic ou Adriano.

É ele. Com seu temperamento discreto, abalou a onipotência dos supertécnicos como Luxemburgo e Muricy, mostrando que altos salários não significam sucesso.

É o gracioso urubu no meio das garças à beira do gramado.

Abre passagem a uma nova geração de estrategistas das categorias de base.

Indica que os responsáveis pela entressafra alcançam fartas colheitas.

Não briga com a imprensa, não grita mais do que o normal, não arma segredos de Estado, não se escandaliza com as críticas.

Difere do tom casmurro e embirrado de parte dos seus colegas e da histeria autoritária das estrelas de terno e gravata.

Não é paranóico, não se vê perseguido e injustiçado nas coletivas.

Tem samba no sangue, uma alegria mansa, um amor antigo pelas redes.

É resolvido o suficiente para suportar qualquer pressão.

Escuta mais do que fala.

Porta-se com a audição de um juiz, longe da tradicional oratória e acusatória de um promotor.

Não é por acaso que faz acupuntura nos ouvidos.

Ao assumir o comando em julho, Andrade retirou o rubro-negro de baixo da tabela, conseguiu um aproveitamento de 72,5% nos derradeiros 17 jogos.

Mário Filho deve encontrar agora uma posição confortável no túmulo. Graças a Andrade, lavamos definitivamente o pó-de-arroz da pele.

http://rolocompressor.zip.net/ 

29 Outubro, 2009

Topic 03


6:00 horas! Lá está o despertado para fora da cama. Os cabelos ainda captando as energias do sonho, como antenas, muitas antenas. Banho gelado, dentes escovados, cabelos “cremeados”, ainda pensa se existe um tempo, tenta espremer o tempo entre os ponteiros do relógio, achar alguma outra derivação, fragmentação, tipo um confortante: 6:45:0,2... Assim o tempo se arrastaria, bem devagar, deixando que as pálpebras se façam lembradas pelo menos na hora no sono.

Mas não dá...

Então desperta, ligeiro, procurando os papeis, acha as pautas

- Tchau Tia

E sai desbravando a manhã, tentando cantarolar alguma coisa, buscando ao menos algum bichinho entre as pedras, calçamento, na verdade, o Cambeba nunca foi de fato asfaltado, daquela maneira clássica, colocando aquele caldão preto no chão, aquilo esquenta, e ele sabe disso – outro fator que ameniza as dificuldades.

- Topic 03

E começa a sardinha tentando se enlatar, entre bundas, mãos, sovacos e chacoalhada, assim vai cortando a manhã, já quente, da cidade quente. Topic 03. Então o cobrador, tranqüilo em seu reinado – de costas pra janelinha – tange as pessoas, aliás, os objetos:

- Minha senhora, chega mais um pouquinho, senão fica difícil de subir mais gente.
- Galera, aperta aí, vai “prensando” pra caber mais gente.
- ei ei ei, “imprensa”.

Imprensa...

... Ponto Final.

15 Outubro, 2009

Desordinária

É como se todas as manhãs ela acreditasse que algo daria certo, mas eu insisto; não dá! Então ela se inibe e fica ali, à esquerda de quem nos vê, ali silenciosa, maquinando o mundo. Eu sei muito bem que na verdade é tudo uma farsa, ela é meio putinha, dá pro chefe, a gente sabe, mas finge que não vê, aliás, a gente não sabe, a gente “suspeita”. Então seguimos suspeitando e eu desejando aquelas pernas quentes, aquela cara de fiel e aquele jeito de quem dá. Picante demais até. Então procuro conduzir a libido, fazer com ele saia pela sala, flutuando, buscando outro aroma, feromônio. E ela ali, me achando fiel, a ela, a nós. Mundo de voltas e claro, volteios...


21 Setembro, 2009

Mostra Varda



Durante sua carreira, Agnès Varda vem intercalando longas de ficção, como Cléo de 5 as 7, que se debruça sobre duas horas na vida de uma frívola cantora pop, que flana por Paris enquanto espera o resultado de um exame, com curtas quase sempre documentais. Independente da classificação de seus filmes, porém, a diretora parece guiar-se sempre por preocupações e urgências extremamente pessoais, não deixando de “quebrar a transparência” e entrar dentro do próprio filme quando lhe parece necessário.

É essa alternância de abordagens e esse profundo estado de imersão em seus temas que deverá estar presente na Mostra Varda, que complementa a programação da passagem da diretora pela cidade. Com uma seleção de filmes feita pela própria realizadora, a retrospectiva começa nesta terça e vai até sexta-feira, sempre as 19h, na Casa Amarela Eusélio de Oliveira (com exceção da quarta, quando a mostra antecede a conferência As praias de Varda: fotografia, cinema, instalação... no Unibanco, no mesmo horário).

Como ponto de partida, o curta A Òpera Mouffe: se para Varda parece necessário intercalar os dois principais tipos de registro, documentário e ficção, neste filme a cineasta propõe a diluição entre os gêneros como única forma de dar seu mergulho sobre as impressões de uma mulher grávida sobre a famosa rua Mouffe de Paris, de modo a fazer uma “sinfonia” de imagens e impressões desse pedaço de mundo. A própria Agnès estando grávida na época das filmagens, pode-se sentir sua presença inteira, mesmo que seu corpo não esteja na tela.

Em Os Catadores e Eu, ao contrário, a própria diretora resolve tornar-se uma catadora e abaixa a câmera para pegar uma batata que lhe interessa. Ela tem formato de coração e é justo esse um cinema das afeições. No documentário, Agnès fala sobre os catadores de diversos tipos na França e define-se ela mesma como uma catadora, uma catadora de imagens.

Desinteressada, essa coleta é mais que mero acúmulo, mas espólio setimental. Não se trata de usar um belo modelo ou paisagem e depurá-los em prazer estético, mas realmente transforma-los em memória, no que ela há de incompleta e também de presente. É o que a cineasta faz em Ulysse, quando tenta desvendar o destino e a memória de um menino, um homem e uma cabra morta que havia fotografada há 25 anos. Um labirinto de afetos e significados revelados por um esforço de reconstrução que não quer chegar ao fim, mas perder-se nas voltas e encruzilhadas desse caminho.

Outra encruzilhada enfrentada pela realizadora é a dos próprios sentimentos e relações humanas e o ponto em que elas se cruzam ou se desfazem da moral. Em As duas faces da felicidade, um homem feliz no casamento encontra uma amante e passa a ser mais feliz ainda. O que é o amor? O que é a felicidade? Varda não responde, mas lança uma provocação doce e amarga sobre o assunto.

Assim como em seus temas mais “subjetivos”, Varda nunca deixou de posicionar-se e se entregar aos temas de sua época, como prova seu engajamento feminista em Resposta de mulheres, divertido manifesto em vídeo, e Salut les cubains, com seu olhar bastante particular sobre a revolução cubana.

Sinopses e mais informações dos filmes;

http://www.cinefrance.com.br/atualidades/festivais/?festival=18


PROGRAMAÇÃO VARDA + MOSTRA (ATUALIZADO)

Segunda-feira, 21/09 14h- Visita da Agnes Varda à Vila das Artes, com a companhia de alunos e realizadores de cinema e audiovisual 16h- Coletiva de Imprensa com a Varda – na Vila das Artes. 19h- Lançamento do filme As Praias de Agnes(110’ – França, 2008), nas duas salas do Unibanco-Dragao do Mar, simultaneamente. Presenca de Agnès Varda.

Terça-feira, 22/09 De 8h ao meio-dia – Tour Fotográfico com Agnès Varda e alunos/realizadores. 15h às 18h – Encontro da Varda com os alunos/realizadores – Vila das Artes. 19h – Mostra Varda – com a presença da Varda – Casa Amarela Eusélio Oliveira-UFC. Filmes: A ópera Mouffe(17’ – França, 1958) e Os Catadores e Eu(82’ – França, 2000).

Quarta-feira, 23/09 12h – Almoço com Agnès Varda e alunos/realizadores, no Mercado dos Pinhões. 19h – Conferência da Agnes Varda – Cinema da Casa Amarela ou no Teatro do Dragao do Mar. Título: As Praias de Varda:fotografia, cinema, instalacao…. Antes da conferência, haverá exibição dos curtas Resposta de Mulheres(8’ – França, 1975) e Ulysse(22’ – França, 1982).

Quinta-feira, 24/09 19h – Mostra Varda – Casa Amarela Eusélio Oliveira. Filmes: T’as de beaux escalier, tu sais?(3’ – França, 1986) eAs duas faces da felicidade (82’ - França, 1964).

Sexta-feira, 25/05 19h – Mostra Varda – Casa Amarela Eusélio Oliveira. Filmes: Salut les cubains (30’ – França, 1963) e Cléo de 5 as 7 (90’ – França, 1961).

leeaufc.wordpress.com