
CAROS COLEGAS, ALUNOS, PESQUISADORES, CIDADÃOS... E PSICÓLOGOS!!! Eu não concordo com a psicóloga, por isso estou fazendo a minha parte - DIVULGANDO!
A maioria de vcs sabe o qto defendo o meio virtual e o qto acredito que este espaço seja um dos mais apropriados nesta "modernidade tardia" (BECK, GIDDENS, LASH , 1997) para a difusão de informação e construção do saber.
Ao mesmo tempo, percebemos a fragilidade desse meio, se pensamos sob uma ótica tradicional e inflexível do não-dinamismo acadêmico. E espero que este e-mail seja UM DESSES EQUÍVOCOS.
Custei um pouco para retorná-lo aos que receberam, mas ao fazer, acrescentei nomes da minha caixa de correio institucional, ainda mais pela nossa Instituição ter o curso de psicologia, e estarmos ATENTOS ao profissional que encaminhamos ao mercado!
Primeiro, analisar atos e discursos não é algo fácil, e, a depender do viés tomado, ou seja, do método adotado, as contestações podem ser inúmeras. Agora, se essa análise se mostra inconsistente, frágil ou, na pior das hipóteses, completamente EMPÍRICA, como é o caso do conteúdo deste e-mail, devemos atentar para a não difusão de informações carregadas de PRÉ-CONCEITO. Como já dizia Norberto Bobbio (2002) a respeito da discriminação - que é algo a mais que a diferença e sempre desrespeitosa e hegemônica, e geralmente, de origem maniqueísta - esta, "nasce na cabeça dos homens" e tem que ser extirpada ali mesmo, através da educação. É para este papel, como educadores, que prestamo-nos: questionar, sistematizar, averiguar, comparar e considerar devem ser as palavras de ordem. Assim, não entrarei, aqui na Teoria dos Atos de Fala (AUSTIN, 1962), pois já tomaria uma outra direção e nos conduziria ao tal empoderamento institucional, ou seja, o fato de ser diplomado em uma determinada área do conhecimento me dá o direito de ser creditado nas minhas palavras, e mais, o que estaria por trás destas palavras ideologicamente?
Ao contrário, tentarei pontuar algumas reflexões que objetivam desconstruir - a partir da proposta defendida por Derrida - (BLUMENBERG, 1982; DUQUE-ESTRADA, 2004: 33-64) conceitos implícitos neste e-mail e que, provavelmente devem estar sendo difundidos sem a justa análise - arma, notoriamente, utilizada a serviço de uma elite dominante (THOMPSON, 1995).
Ponto 1- o ato de repúdio do cantor, ao pisar na BANDEIRA NACIONAL, foi sim, um desrespeito a um símbolo nacional - mas não caracteriza MARGINALIDADE ou ATITUDE APÁTRIDA. Sugiro à autora do texto, aprofundar-se nas questões que envolvem o binômio MARGEM/CENTRO, para melhor (ou realmente) entender o conceito de marginal(idade). Este comportamento desempenhado por Cazuza está relacionado à morte AINDA INEXPLICÁVEL de Tancredo Neves - isso ninguém fala! Por que? E mais, quantos vezes, somos nós, enquanto IDENTIDADE CULTURAL, pisoteados e envergonhados por representantes eleitos por nós mesmos? Por que culpar UM pelo erro contínuo e desenfreado de todos, sim... De todos, sem exageros, afinal, todos temos aquilo de que nos enverganhamos por ter feito um dia! A propósito... tenho o vídeo deste ato... e geralmente uso em minhas aulas, quando falo do momento pós-ditadura militar. Não defendo nem exalto - apenas comento, percebo, aprendo e reconstruo coletivamente.
Ponto 2- sim. foi corajosa ao escrever... e completamente emotiva... linguagem emotiva, pelo que me consta não é característica de textos de cunho científico...
Ponto 3- excelente reflexão entre parênteses da autora "(pelo menos eu)", em definir-se maniqueísta: "certo ou errado"... Sem comentários, pois não vou discutir o ponto de vista pessoa da autora do texto!
Ponto 4- sobre os exemplos de pais também evito discutir aqui, pois sairíamos do tema proposto. o mercado está cheio de manuais de paternidade e maternidade (grande parte deles construídos por psicólogos). E lembro que a maternidade é algo natural - nós, com a "necessidade" de reificar (THOMPSON, 1995) tudo é que construimos "modelos" de maternidade e paternidade. E aí, entraria uma outra discussão, para outro momento que é a questão de gênero (BUTLER, 2001; 1994), discutida no grupo de pesquisa que oriento, nesta IES. Cara colega acadêmica, os exemplos de paternidade e maternidade aqui usados pela senhora, não são aptos a um comentário generalizante. Não houve pesquisa, um casal não é sequer modelo para uma pesquisa quantitativa, quanto mais um corpusválido para tabulação. O que invalida suas considerações finais neste quesito. Outra vez, vemos a voz de uma mãe emocionada, clamando pela "segurança" (FOUCAULT, 1984) de seus filhos.
Ponto 5- Traficante x Usuário - a lei diferencia (ainda que não claramente - mas podemos, também, nos perguntar por que não é interessante para uma sociedade como a nossa essa distinção) estas duas atividades sociais - e pelo que nos consta, Cazuza era usuário apenas. Em rápida pesquisa na internet não achei nada que nos levasse a uma prisão do cantor por tráfico de drogas. Ao contrário, ao longo de 5 páginas de pesquisa (não me forcei a ir além), a única referência a Cazuza ser traficante é este texto que encaminho aos senhores e senhoras. E quem mais se enquadra na lista iniciada pela psicóloga? Elis Regina, estaria? Acho que não... ela falava com marcianos sobre os problemas aqui da terra!
Ponto 6- Surpreendi-me com a afirmação do juiz Siro Darlan. Parece-me que o referido advogado desconhece (como a maioria de nós) a Lei 11.343/2006... Parabéns!!! E passou no exame da Ordem... será que com 10? DEZordem!!!
Ponto 7- Fiquei horrorizado em saber que uma pessoa, ao assitir um filme, pense que aquilo é o certo a ser feito. Entao vamos conversar com nossos filhos sobre os filmes que falam sobre traição, enriquecimento (lícito ou não), etc. Uma família (hetero, homo, "pãe", etc) bem estruturada dispensa tais conversas. Fiquei mais horrorizado em perceber que este e-mail que este e-mail quer PARECER SER A COISA CERTA! Isso me preocupou deveras, a ponto de eu criar essa intervenção!
Ponto 8- "Juventude transviada"... Há quanto tempo não ouço esse termo... hahaha... Não consegui conter o riso... Lembrei-me da jovem guarda... cabelos longos, canções e protestos... mas conformidades com a ditadura militar... e por outro lado, os transviados do tropicalismo... certamente, na visão desta profissional, traficantes, marginais e delinquentes, tb... mas responsáveis por um dos maiores movimentos artísticos do nosso país - e digo isso com o orgulho da minha baianidade!
Ponto 9- Realmente, Karla, precisamos rever nossos (PRÉ-)conceitos... os conceitos, na verdade, precisam ser é fundamentados em princípios éticos laicos - já que contra toda a fundamentação ética, criaram a necessidade de uma locução adjetiva para este termo. QUE ABSURDO, filosoficamente falando!
Ponto 10- NÃO. Advérbio de negação. Palavra de ordem numa sociedade dita civilizada... Para Jung, um dos elementos da individuação. Para Freud, o princípio da dor (poderia dizer isso? Não sou psicólogo. Deles, conheço apenas o que se refere a linguagem, por isso mesmo, mais especializado em Lacan e Jung). Creio que com esta fala, a autora mostra toda sua linha de raciocínio... E aqui, começaria outra discussão (não contei quantas já se iniciaram, duas? três?)
ponto 11- (e último, para afastar-me da exatidão dos 10 mandamentos). A autora fala em educação. Ela tem noção do que afirma neste momento? Em caso afirmativo, a conclusão é inteiramente contrária aos argumentos expostos - o que invalida a própria discurssividade, demonstrando outros valores, mais importantes que denegrir a imagem de um dos brasileiros mais dignos de VIDA neste país. Em caso negativo, voltamos a uma concepção behaviorista de educação, e pior, pautada por instituíções político-religiosas... Putz! Isso me lembra o documento assinado pelo nosso presidente (do PT???) no Vaticano, garantindo o ensino religioso CRISTÃO-CATÓLICO (esse termo sustenta o princípio de universalidade contido? DUVIDO!) no nosso ensino público!
Caros, desculpem-me pelo email longo... MAS NECESSÁRIO! Não quero enaltecer ou execrar pessoas ou atitudes aqui, antes, meu intuito é refletir sobre o que lemos, o que nos faz interpretar o que lemos e como agimos frente ao que lemos. Já dizia Austin (1962) que "dizer é fazer".
Obrigado,
José Lins Jr.
* Ah! Ousei-me alterar o assunto do e-mail (MAIÚSCULAS NOSSAS), utilizando-me da mesma intenção do autor deste título ao se referir ao grande Cazuza - que sem ser psicólogo, e usando drogas e levando uma vida "transviada" (palavras da autora), fez muito mais sociologia que acadêmicos de renome nacional e internacional - como também o fizeram Caetano, Gil, Ednardo, Vinícius, Baden, e tantos outros.
(Pra quem quer ler o texto da psicóloga Karla Christine, siga link)
Referências:
AUSTIN, J. L. How to do things with words. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1962.
BECK, Ulrich, GIDDENS, Anthony e LASH, Scott. Modernidade reflexiva: trabalho e estética na ordem social moderna. São Paulo: Unesp, 1997.
BLUMENBERG, Hans. On deconstruction: theory and criticism after structuralism. London: Routledge, 1982.
BOBBIO, N. Elogio da serenidade e outros escritos morais. São Paulo: UNESP, 2002.
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do sexo. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001. p. 151-172.
______. Gender as performance: an interview with Judith Butler. Radical Philosophy, 67, Summer 1994. Disponível em:http://www.theory.org.uk/but-int1.htm. Acesso em: 11 dez. 2009 às 07:43h.
DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar. Alteridade, violência e justiça: trilhas da desconstrução. In: ______. (Org.). Desconstrução e ética:ecos de Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio/Edições Loyola, 2004. p. 33-64.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.
THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.